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A CRUZ DE CRISTO - HERÁLDICA NO FUTEBOL



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8. Cruz de Cristo

A Ordem do Templo foi extinta pelo papa em 1310, a pedido do rei francês Felipe, o Belo. O rei português D. Diniz queria que os bens que a Ordem tinha em Portugal fossem devolvidos à Coroa, que os havia doado. Mas o papa queria que eles fossem repassados à Ordem de Malta. Para evitar isso, chegaram a um meio termo: sob a bênção papal, o rei criou Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, em 1319, que herdou seus bens e sua estrutura. Até a sede foi a mesma: a cidade de Tomar.

Como é sabido, a era das grandes navegações portuguesas teve um de seus líderes na figura do Infante D. Henrique. Pois ele era mestre da Ordem de Cristo. Nessa condição, ele tinha em mente expandir as fronteiras do cristianismo. “Portugal, nação católica e fidelíssima, tinha como principal missão combater os infiéis e dilatar a fé de Cristo” (Raminelli, p. 246). Isso era considerado, pela própria Igreja, uma autêntica cruzada contra os infiéis, especialmente nos confins não dominados pelo Islã, cujas tropas ameaçavam a Europa. Chegou-se ao ponto de o papa conceder à Ordem de Cristo a jurisdição espiritual sobre todas as terras por ela descobertas. Como a partir de D. Manuel o grão-mestre da Ordem era o rei de Portugal, na prática, a Ordem tinha também a jurisdição temporal sobre essas terras. Além disso, a Ordem era muito rica e poderosa, graças às doações dos reis portugueses. Por essas e outras, ela foi a de maior e mais demorada atuação em Portugal e suas colônias. Inclusive o Brasil, “descoberto” durante o reinado justamente de D. Manuel.

A colonização das Américas não foi apenas política e econômica. Foi também do imaginário, como bem explica Serge Gruzinski. Portugueses e espanhóis empreenderam uma verdadeira “guerra de imagens”. Nessa guerra, o poder da Ordem de Cristo era também de forte impacto visual: os velames e estandartes das caravelas e os marcos de posse tinham estampada a Cruz de Cristo – em sua última configuração, uma variante da cruz potenciada (“potentada”) que, em vez de as hastes terminarem em “T”, são rematadas por um trapézio isósceles com a base voltada para fora. Essa cruz é vermelha, vazada uma cruz branca (para simbolizar a inocência dos templários, seus antecessores), salvo nos remates das hastes.

O desenho da Cruz de Cristo é feito com base num octógono, provavelmente inspirado na forma octogonal da planta do Santuário da Rocha, onde se encontrava o Templo de Salomão, vizinho da Ordem dos Templários. Essa estrutura conduz necessariamente às proporções do octógono, seja no formato das extremidades das hastes, seja no tamanho delas, que precisa ser igual (cruz grega). Ocorre que muitas reproduções da Cruz de Cristo não seguem essas proporções, seja nos ângulos dos arremates das extremidades, seja no fato de que há algumas que adotam a forma da cruz latina (i.e., em que a haste inferior é maior que as demais).

A Cruz de Cristo esteve muito presente na heráldica do Brasil, desde a viagem de Cabral. Já na partida de Lisboa, o rei “D. Manuel assistiu à missa cujo sermão foi feito pelo bispo de Ceuta, D. Diogo Ortiz, o qual benzeu uma bandeira da Ordem de Cristo que o rei entregou a Pedro Álvares Cabral” (Nova história da expansão portuguesa, v. 6, p. 52).

Essa bandeira da Ordem inclusive é citada por Pero Vaz de Caminha, pois ela acompanhava os navegantes nos deslocamentos que faziam, em mar e em terra. Aliás, segundo Caminha, ela esteve hasteada durante a Primeira Missa celebrada na nova terra:

“Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. (...) Ali era com o Capitão a bandeira de Cristo,com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho.”

Naquela época, até 1521, a bandeira real portuguesa (portanto, também brasileira) era dominada pela Cruz de Cristo. Até os bandeirantes levavam consigo a bandeira da Ordem de Cristo (cf. Poliano, p. 223). Depois da proclamação da independência, a bandeira imperial também apresenta, no centro, atrás da esfera armilar dourada (símbolo adotado por D. Manuel, em cujo reinado foram feitas as grandes viagens e descobertas ultramarinas; armilar vem de armilas, que são os círculos que compunham esse instrumento de aprendizado de navegação), uma Cruz de Cristo (para lembrar os primeiros nomes desta terra: Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz) – cf. Poliano, loc. cit. Ou seja, durante 88 anos (descontínuos), a bandeira do Brasil teve uma Cruz de Cristo. Isso sem contar as moedas emitidas durante o período colonial e a Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, ordem honorífica brasileira plasmada da portuguesa Ordem Militar de Cristo, com que o Imperador premiava o mérito.

A Cruz de Cristo
Cruz de Cristo

A Cruz de Cristo
O desenho da Cruz de Cristo é feito com base num octógono...

A Cruz de Cristo
... provavelmente inspirado na forma octogonal da planta do Santuário da Rocha

A Bandeira real Portuguesa
Bandeira real portuguesa (e, por conseqüência, também brasileira) até 1521. Notar que as extremidades das hastes da cruz não obedecem às proporções do octógono. Ainda assim, é a Cruz de Cristo.

A Bandeira do Império do Brasil
Bandeira do Império do Brasil. A Cruz de Cristo está atrás da esfera armilar dourada, no centro.

Brasão de Armas de Tomar (POR)
Brasão de armas da cidade de Tomar (Portugal), sede da Ordem do Templo em Portugal e depois da Ordem de Cristo. Notar a presença de duas cruzes, a da esquerda orbicular (dos templários portugueses) e a da direita de Cristo.

Cruz de Cristo
As proporções do octógono exigem que a Cruz de Cristo tenha hastes de tamanho igual, como na cruz grega deste desenho, no entanto...

Cruz de Cristo
... às vezes a Cruz de Cristo é reproduzida com a haste inferior maior, como na cruz latina deste desenho. E, é claro, das medalhas abaixo.

Medalhas da Ordem de Cristo



O primeiro distintivo da AA Portuguesa santista foi criado por volta de 1922, quando foi escolhida como símbolo apenas uma cruz – o Guia Oficial do Campeonato Paulista mostra uma cruz igual à do Vasco, mas a Enciclopédia Lance diz que era uma Cruz de Cristo. Em 1944 é que surgiu o primeiro escudo completo, nos moldes do atual, salvo pequenas alterações. Fato indiscutível é que, atualmente, é a Cruz de Cristo, com um escudeto com as iniciais do clube (AAP).

Também é a Cruz de Cristo que figura nos escudos do Luzitano FC, de São Paulo (SP), do São Gabriel FC (RS), do Clube de Futebol Os Belenenses (Portugal), do Vasco Sports Club (Goa) e da Federação Portuguesa de Futebol. Como se vê no livro de Abrahim Baze, os primeiros times de futebol do Luso SC também ostentavam uma Cruz de Cristo no peito.

Segundo o próprio site oficial do clube, no Vasco, a Cruz de Cristo figurou na caravela estampada no primeiro escudo do clube, de formato circular, criado em 1903.

Quanto à camisa 3 do Vasco que foi lançada em 2010, quantas cruzes o leitor vê nela? A rigor, são quatro. De fora para dentro:
1) uma Cruz de São Jorge, vermelha, latina, firmada nas bordas da camisa;
2) uma cruz pátea branca, latina, solta (i.e., não firmada);
3) no centro (ou “abismo”, como se diz na heráldica), uma Cruz de Cristo (vermelha, solta);
e 4) dentro dela, a respectiva cruz grega branca.

Notar que a cruz n° 3, apesar de possuir o perfil de uma Cruz de Cristo, com ela não se confunde, por ser branca e por não estar vazada por uma cruz latina branca. É o mesmo motivo pelo qual a cruz no escudo da CBF também não é a Cruz de Cristo, como veremos adiante, quando falarmos da cruz pátea.

Distintivos de clubes com a Cruz de Cristo

Distintivo do Belenenses
Escudo do Clube de Futebol Os Belenenses, de Portugal.

Distintivo do CD Vasco da Gama, da India
Escudo do Vasco Sports Club, ex-Clube Desportivo Vasco da Gama, de Goa (ex-colônia portuguesa na costa da Índia).

Federação Portuguesa de Futebol
Escudo da Federação Portuguesa de Futebol – formato de cruz latina.

Primeiro escudo do Vasco, de 1903
Primeiro escudo do Vasco, de 1903.

Camisa 3 do Vasco, de 2010, nas mãos de Roberto Dinamite
Camisa 3 do Vasco, de 2010, nas mãos de Roberto Dinamite.

Versão preta da camisa
Versão preta da camisa.


CRUZ TEMPLÁRIA Cruz de Cristo CRUZ PÁTEA

 

Clubes do Futebol Paulista 1888-1909

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