Federação Gaúcha de Futebol HISTÓRIA DO FUTEBOL GAÚCHO - PARTE 2

( Futebol Elitista - Negros no Futebol - Fim do Preconceito )

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O Futebol Elitista e os Negros

O time campeão de 1920, o Guarany, de Bagé, era uma verdadeira miscigenação, com a presença de uruguaios e negros. Os uruguaios campeões eram Grecco, Ruival e Granja. O time também apresentava jogadores negros e mulatos. O futebol na época, ao contrário aos dias atuais, era elitista. Os negros e os pobres não tinham vez. Em Porto Alegre, de 1903 a 1909, existiam apenas dois clubes, o Grêmio e o Fuss Ball, eram formados, basicamente, por descendentes de alemães. O Inter foi fundado por comerciantes e integrantes da classe média. O Cruzeiro, fundado em 1913, era composto por jovens de famílias influentes na época.

No Rio de Janeiro, o primeiro negro aceito em um clube de futebol da 1ª divisão foi Francisco Carregal, pelo Bangu, em 1905, mas esta não era a prática comum da época. No Fluminense, por exemplo, o mulato Carlos Alberto, em 1914, usava uma maquiagem para ficar “mais branco”.

Apesar de o Vasco ser considerado o primeiro clube a abrir espaço amplo para negros e pobres, o Guarany, de Bagé, campeão de 20, já tinha mulatos e negros na sua equipe. Em Porto Alegre e Pelotas, por exemplo, os dois centros mais desenvolvidos do futebol da época, os negros criaram ligas independentes de futebol.

Em Porto Alegre foi formada, no final da década de 10, a Liga da Canela Preta, a Liga Nacional de Futebol Porto Alegrense, com jogos no antigo campo do Internacional, na ilhota, onde hoje está situada a praça Sport Club Internacional, próximo ao hospital Porto Alegre. A Liga começou no final da década de 10 e formou times poderosos até a década de 30. Primavera, Bento Gonçalves (famoso clube que excursionou com êxito pelo interior do estado em 1923), União, Palmeiras, Primeiro de Novembro, Rio-Grandense, 8 de Setembro, Aquidabã e Venezianos foram alguns dos times da Liga da Canela Preta.

Em 1922, a liga oficial, a APAD, criou sua segunda divisão e nela abriu oportunidades para jogadores e clubes negros, fato que os atraiu progressivamente, acionando uma lenta e gradual decadência da Liga da Canela Preta. O Rio-Grandense era o clube dos mulatos e o seu presidente era Francisco Rodrigues, pai do famoso compositor Lupicínio Rodrigues.

Em 1922, a Associação Porto-Alegrense de Desporto, a APAD, criou a 2ª divisão do campeonato da cidade, onde era permitida aos clubes menores a utilização de jogadores afro-descentes e de origem humilde. Porém, não havia promoção à 1ª divisão.

Em Pelotas, a liga negra era a José do Patrocínio, cujo campeonato já era disputado em 1920, quando o campeão foi o S.C. América do Sul. Em 1923 e 1924, com a revolução federalista, o campeonato estadual não foi disputado e vários campeonatos municipais também não ocorreram. Em Pelotas, a Liga José do Patrocínio não parou: o S.C. América do Sul foi novamente campeão. Em Rio Grande, a Liga Rio Branco também era formada, exclusivamente, por equipes com jogadores negros.

O Fim do Preconceito

No entanto, os principais clubes resistiam ao talento e à força do futebol dos negros.

Em 1928, o campeão do Estado foi o Americano, com os negros Alegrete, goleiro, e Barulho, meio-campista. O Americano, entre os principais clubes de Porto Alegre, foi o pioneiro a quebrar o preconceito; Cruzeiro e Inter, ainda em 1928, e São José logo após, seguiram o exemplo.

O primeiro negro a jogar no Inter foi Dirceu Alves, em 1928. Dirceu, porém, teve passagem rápida pelo Inter: de setembro de 1928 a maio de 1929, jogou apenas 10 partidas com a camisa do Internacional. Depois de Dirceu, o Inter passou a acolher, paulatinamente, jogadores oriundos da Liga da Canela Preta, como Chatinho, Bagre, Davi e Natal, originando, na década de 30, os apelidos de “clube dos negrinhos” e “clube do povo”.

Porém, o aproveitamento dos negros ainda era tímido na década de 30 e somente a partir de 1940 é que passou a ser feito em grande número pelos principais clubes da cidade, como Internacional, Cruzeiro e São José. O Nacional, de origem ferroviária e humilde, desde a sua fundação, em 1936, sempre aceitou negros e pobres, assim como o Grêmio Esportivo Força e Luz.

Nas décadas de 20 e 30, os negros jogavam em clubes menores ou somente na sua Liga da Canela Preta. Assim, clubes como o S.C. Ruy Barbosa, situado na antiga colônia africana, Concórdia F.B.C., S.C. Municipal, Bancário, de Vicente Rao e S.C. Marechal de Ferro formaram fortes equipes nas décadas de 20 e 30. O Americano, que tinha o seu estádio na rua Veador Porto, foi campeão da cidade em 1924 e 1928 e do Estado, em 1928, contando com jogadores de origem humilde em sua equipe.

O Grêmio, oficialmente, abriu suas portas aos jogadores negros somente em 1952, com a contratação do consagrado Tesourinha, que estava no Vasco da Gama. Tesourinha havia brilhado no Internacional, de 1940 a 1948, época do famoso rolo compressor do Inter, que ganhou oito títulos nestes nove anos de Tesourinha. Após jogar no Vasco, estreou no Grêmio, no dia 16 de março de 1952, numa vitória de 5 a 3 sobre o Juventude, em Caxias do Sul. Tesourinha jogou no Grêmio nas temporadas de 1952, 1953, 1954 e 1955.

Apesar de Tesourinha, oficialmente, ser o primeiro, o Grêmio já havia contado, desde a década de 20, com jogadores de origem negra em suas equipes. Adão Lima, que jogou no Grêmio de 1925 a 1935, é um dos exemplos. Na década de 40, Hélio e Mário Carioca são outros casos de afro-descendentes nas equipes tricolores, assim como o atacante Hermes da Conceição, que jogou no clube de 1947 a 1950.

O lendário goleiro Eurico Lara, vindo do E.C. Uruguaiana para o Grêmio em 1920, era mestiço e de origem humilde. Ele atuou no tricolor até 1935, foi ídolo da torcida e acabou imortalizado por Lupicínio Rodrigues na letra do hino do clube.

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Pesquisas realizadas por Sidney Barbosa da Silva
Fontes: Arquivo www.campeoesdofutebol.com.br; ALVES, Eliseu de Mello - O Futebol em Pelotas - Gráfica Mundial, 1984; CONCEIÇÃO, João Batista E.C. 14 de Julho, O Primeiro Rubro-Negro do Brasil - Ébanos Editora, 2002; DIENSTMANN, Cláudio, Campeonato Gaúcho, 68 Anos de História - Editora Sulina, 1987; JUNIOR, Amaro - Almanaque Esportivo do Rio Grande do Sul - Gráfica Thurmann, 1957; Revista Federação Gaúcha de Futebol - 76 anos e os melhores momentos, Nova Prada, 1994; FILHO, Mario. O Negro no Futebol Brasileiro, Mauad, 2003. 4ª edição.
Página adicionada em Março/2009.

 

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