Como é sabido, o CR Vasco da Gama só ingressou no futebol depois de 26.11.1915, quando incorporou o Luzitania SC, seus jogadores, uniformes e chuteiras. Que vieram a constituir o departamento de futebol, cujo primeiro diretor foi Laurestin Fróes da Cruz, um bancário corpulento que jogava na ponta direita.

O primeiro gasto do clube foi com duas bolas. O segundo, com a inscrição na Liga Metropolitana, um valor astronômico, que exigiu uma coleta entre os sócios. O campo de treinamento era o da Praia do Russel, em revezamento com o CR Flamengo e o CR Boqueirão do Passeio. Para os jogos oficiais, indicou o campo do Botafogo FC, na rua General Severiano.

Como pré-temporada, antes do campeonato da terceira divisão de 1916, jogou dois amistosos em abril, com o Parc-Royal FC e o Cattete FC. Antes disso, num jogo-treino com o Boqueirão do Passeio, perdeu de 8x0. Um desastre. Podia piorar?

Sim. Justamente na primeira partida oficial do Vasco. Sua estreia no campeonato, em 03.05.1916, em General Severiano, foi a pior goleada de sua história: 10x1 para o Paladino FC. Gol de honra anotado pelo português Adão Antonio Brandão, o primeiro a marcar pelo Vasco em competição oficial. Na sequência do primeiro turno: 5x1 para o SC Brasil (9x0 pelos segundos quadros), 4x0 para o CR Icarahy, 4x2 para o Progresso FC (ex-Parc-Royal) e 4x3 para o modesto River FC. Ou seja, 27 gols sofridos, uma média de 5,4 por partida.

Os placares elásticos apenas retratavam o fato de que o Vasco jogava com um time improvisado. Os jogadores do Luzitania eram esforçados mas despreparados. Não tinham treinamento nem condicionamento físico, não conseguiam correr nem dominar a bola. Daí que o clube buscou reforços para o returno. Funcionou, os escores diminuíram: 2x0 para o Paladino, 3x0 para o Progresso, 4x1 para o Icarahy.

Até que, depois de tanto chocolate, chegou a vez do Pastel de Belém: a primeira vitória, em 29.10.1916, 2x1 sobre o River – que, com dificuldades para montar um time completo, tinha entrado em campo com apenas nove jogadores... Para encerrar a campanha, uma derrota por WO para o SC Brasil sacramentou a lanterna do torneio, cinco pontos atrás do penúltimo, o River.

Em resumo: uma vitória, nove derrotas, 10 gols marcados e 37 sofridos. Poucos clubes sobreviveram a uma catástrofe como essa. E só um fez desse calvário a forja de um campeão.


Por Laércio Becker, de Curitiba-PR.
Fontes:
CABRAL, Sérgio. Club de Regatas Vasco da Gama: livro oficial do centenário. Rio de Janeiro: BR, 1998. p. 31.
MESQUITA, Alexandre (org.). Almanaque do Vasco. Rio de Janeiro: Pébola, 2019. p. 15.
ROCHA, José da Silva. Club de Regatas Vasco da Gama: histórico. Rio de Janeiro: Olímpica, 1975. v. 1, p. 194 e ss.
SANTOS, João Manuel Casquinha Malaia. Revolução vascaína: a profissionalização do futebol e a inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934). Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2010. p. 139.
VENANCIO, Pedro. Nasce o gigante da colina. Rio de Janeiro: Maquinária, 2014. p. 23-4.
Página adicionada em 30/Outubro/2020.

 

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