Como é sabido, nem sempre vence a partida o melhor time ou mesmo o que jogou melhor. É a famosa zebra. “Zebra” é justamente essa situação “anômala”, encarada como um “castigo” (conceito estranho ao universo do jogo, mais próprio da religião – Damatta, p. 149), quase sempre “dos deuses da bola”, coroado pelo bordão “quem não faz, leva”, que busca o consolo de uma justiça divina para explicar o resultado “injusto” – ver Prado, p. 218. Outro consolo é a auto-concessão do título de “campeão moral”.

Para os estóicos, a vida é um jogo de habilidade com um pouco de acaso (Smith, p. 348). Pois é exatamente assim em muitos esportes. Pode-se dizer que a freqüência do resultado inesperado, em determinada modalidade esportiva, é inversamente proporcional à importância da destreza (agôn) e diretamente proporcional à participação do elemento sorte (alea) e à interferência de fatores externos (p.ex., clima, arbitragem, compra de resultado etc. – ver Damatta, p. 155 e ss.). P.ex., num jogo que é de pura sorte, é até ridículo falar em zebra. Mas em jogos de destreza, a pitada de alea e de interferências externas constitui o “imponderável” – alô, Sobrenatural de Almeida!... – que alimenta as explicações místicas e legitima a superstição de jogadores e torcedores.

Só que há outra linha de raciocínio a considerar: o peso da zebra deve ser avaliado também em função da freqüência e do intervalo de avaliação do desempenho. Vejamos o futebol: o Íbis pode marcar um gol, pode até ganhar uma partida, mas dificilmente será campeão da primeira divisão. Temos aqui uma curva decrescente de probabilidades de zebra, que vai do gol pouco provável até o título praticamente impossível. No xadrez, a zebra pode até vencer uma partida, dificilmente vencerá um torneio e com certeza não terá um rating elevado. No tênis e no voleibol, a zebra certamente ganhará pontos, provavelmente alguns games, talvez um set ou outro, dificilmente partidas inteiras. Em resumo, zebra não vence campeonato. Se vencer, não era uma zebra. Nota-se, com isso, que a possibilidade de zebra se reduz à proporção que aumentamos a freqüência da avaliação de desempenho: quanto maior a freqüência da avaliação do desempenho, menor a possibilidade de zebra. Por isso, jogos de baixa pontuação, como o futebol, tendem a apresentar mais zebras do que jogos de alta pontuação, como o basquetebol.
VAR em utilização pela CBF
Foto: CBF.com.br

Seja como for, quanto mais meritocrático um jogo, maior a previsibilidade do resultado e menor a possibilidade de zebra. Além disso, quanto mais meritocrático um jogo, mais o resultado contrário ao detentor do merecimento é chamado de “injusto”.

De fato, é muito comum ouvir jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas, comentaristas e torcedores falarem que determinado resultado é justo ou injusto. Essas alegações costumam seguir padrões. No futebol, costuma-se dizer que um resultado é justo quando vence o time:

• Que é da preferência de quem emite a opinião ou da audiência majoritária do veículo que a emite;

• Que enfrentou mais e/ou maiores dificuldades dentro de campo – p.ex., jogou com menos jogadores, teve seus craques contundidos, jogou em altitude ou temperatura com que não está acostumado;

• Que enfrentou mais e/ou maiores dificuldades fora de campo – p.ex., pressão da torcida adversária; inferioridade de recursos, inclusive materiais esportivos e de folha salarial; atrasos salariais; dificuldades financeiras em geral;

• Que enfrentou expedientes ilícitos ou antiéticos (p.ex., cera, catimba, violência, corrupção), falta de fair-play, erros de arbitragem etc.;

• Que venceu sem ser beneficiado por erro ou parcialidade da arbitragem, ou que superou esse tipo de obstáculo;

• Que possui maiores qualidades táticas (melhor estruturado em campo) ou técnicas (jogadores mais talentosos) – agôn; curiosamente, o melhor preparo físico não costuma ser usado como critério para avaliação da justiça do resultado;

• Que, jogando em estilo futebol-arte, derrotou o futebol-força ou o chamado “antifutebol” (violento);

• Que se esforçou mais pelo resultado – normalmente, o time que mais atacou; mas é justo vencer quem soube se defender? O esforço de ataque é mais associado ao conceito de justiça da vitória do que o esforço de defesa ao conceito de justiça do empate, provavelmente porque a vitória é o objetivo “natural” de um jogo;

• Que chegou às finais com mais pontos que o time derrotado – neste caso, o juízo de “justiça” compara o resultado das finais ao de um campeonato por pontos corridos;

• De melhor campanha – neste caso, o resultado não é avaliado isoladamente, mas como decorrência lógica de uma campanha na qual se insere;

• Que é historicamente prejudicado, ao longo da história ou da competição.

Mas, afinal de contas, o resultado de uma partida de futebol pode ser avaliado em termos de justiça? À primeira vista, a resposta deveria ser: não. E chegamos a essa resposta tomando, por contraste, o exemplo do telecatch – a “luta livre”, simulação de luta feita com atores. O telecatch não é uma disputa verdadeira: é uma encenação de confronto físico entre um lutador representante do “bem” (o “mocinho”, tipo Ted Boy Marino) e um “vilão”. Nesse sentido, o telecatch oferece ao público não uma disputa entre destrezas, mas um espetáculo fictício de uma justiça igualmente fictícia, que é a punição exemplar do vilão (Barthes, p. 11, 15, 17-20).

O estranho nisso tudo é que o telecatch, caso extremo de exigibilidade de um “resultado justo”, não tem seu resultado guiado por critérios meritocráticos. Pelo contrário: o resultado é preestabelecido. Não há agôn nem alea, mas puro mimicry: o mérito está na boa encenação. Em jogos de agôn, nem sequer com desequilíbrio flagrante, como um Íbis x Real Madrid, pode-se falar em resultado certo mas, no máximo, altamente provável, haja vista a possibilidade, ainda que remota, de uma zebra. Ao contrário, tal como numa peça de teatro, o resultado do telecatch é preestabelecido num roteiro, o script. Não há possibilidade de zebra.

Por mais que eu acredite que o futebol profissional envolve muito dinheiro para se deixar decidir pelos pés de 22 jogadores, devo reconhecer que, apesar disso, não se confunde com o telecatch. Porque, mesmo que os resultados sejam definidos nos bastidores, como acredito, ainda assim, o espetáculo em campo não serve para “promover a justiça”, como no telecatch. Ao contrário do que ocorre no telecatch, no futebol, a “armação” (“marmelada”) não se faz para promover a justiça, mas para entregar a mercadoria – o resultado – a quem a comprou.

Por conta dessa diferença de objetivos, podemos dizer que no telecatch a justiça é um valor-fim enquanto num jogo de verdade, um valor-meio.

Conseqüentemente, salvo na opinião parcial do torcedor, do jogador, do treinador e do dirigente, nenhum dos times tem o direito de vencer mas todos têm direito a uma disputa “justa”, i.e., com igualdade de oportunidades (Elias, p. 204 e ss.; Caillois, p. 37-9). Ou seja, existe um direito a que o adversário cumpra as regras, de modo que é perfeitamente justificável considerar injusto o resultado maculado por erro ou parcialidade na arbitragem. No entanto, fora isso, não há um “direito à vitória” (Hayek, v. 2, p. 89 e ss).

E é justamente esse contexto, de busca do “resultado justo”, que legitimou a adoção do VAR. A demanda por transparência. Ocorre que, segundo Baudrillard, o elogio da transparência, de um lado, não elimina o segredo, apenas o sataniza; e, de outro, fortalece a dominação de quem é “transparente”. Nada contra a satanização da “mala preta”, mas também nada a favor da canonização dos “malas de preto”, que deslocam o epicentro decisório do jogo com a desresponsabilização do árbitro.

Nesta “sociedade do espetáculo” (Debord), o VAR transforma a partida num Big Brother espetacular – aliás, espetaculoso. Que investiga milimetricamente cada centésimo de segundo de cada lance. Que esquadrinha todos os frames de todos os movimentos. Que “esquarteja” os jogadores no monitor, para analisar cada parte separadamente: em impedimento, onde está o pé; em toque, onde está a mão; e assim por diante.

Parece um pacote feito sob medida para o que Nelson Rodrigues chamava de “idiota da objetividade”. Porque, no VAR, prevalece a objetividade irrefletida das posições e movimentos, em detrimento da subjetividade – dolo e culpa. Sobretudo nas suspeitas de toque de mão por atacante. “A regra é clara”. E in claris cessat interpretatio.

Tudo bem. Só tem um detalhe. Segundo Nelson Rodrigues, o pior cego é o que só vê a bola.


Página adicionada em 12/Outubro/2019.
Fontes de pesquisas utilizadas pelo autor (Laércio Becker):
• ÂNGELO, Ivan. A casa de vidro. In: LUCAS, Fábio (org.). Contos da repressão. Rio de Janeiro: Record, 1987. p. 17-40.
• BARTHES, Roland. Mitologias. 5ª ed. São Paulo: Difel, 1982.
• BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal. 2ª ed. Campinas: Papirus, 1992.
• CAILLOIS, Roger. Os jogos e os homens. Lisboa: Cotovia, 1990.
• DAMATTA, Roberto. A bola corre mais que os homens. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
• DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
• ELIAS, Norbert. A busca da excitação. Lisboa: Difel, s/d.
• HAYEK, Friedrich A. von. Direito, legislação e liberdade. São Paulo: Visão, 1985.
• PRADO, Decio de Almeida. Seres, coisas, lugares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
• SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. 2ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

 

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