O nome dele pode até não ser tão conhecido quanto o de alguns companheiros do histórico Real Madrid do fim dos da década de 1950. No entanto, nem mesmo ídolos como Alfredo Di Stefano e Ferenc Puskás tiveram tantas conquistas quanto Francisco Gento, um dos melhores pontas-esquerdas do mundo na época — constatação que ganha corpo pelo esmagador número de troféus do atacante espanhol.

Filho de motorista, "Paco" Gento teve de deixar a escola aos 14 anos para trabalhar e ajudar no sustento da família. Em uma vida que começou marcada pelas dificuldades, o grande êxito só veio após um início frustrante pelo Real Madrid. É o único jogador que pode se orgulhar de ter vencido seis edições da maior competição europeia de clubes.

Corra, Gento, corra!
Quando criança, Paco Gento praticou futebol e atletismo. Nas pistas atléticas, ele adquiriu a velocidade que marcou o seu estilo como jogador. Gento começou a chamar a atenção quando fez nove gols em uma única partida de um torneio regional com 14 anos. No entanto, ele se consagraria mais pelas assistências que pelos gols marcados.

Gento assinou o primeiro contrato em 1952 com o Racing Santander, onde ficou por poucos meses. No ano seguinte, o Real Madrid bateu à porta. Na capital espanhola, ele atuou por 18 anos. No entanto, os primeiros jogos com a camisa merengue foram desastrosos. O atacante exibia grande velocidade, mas lhe faltava técnica com a bola nos pés e uma melhor dosagem de esforços na hora de correr. Os torcedores madridistas não se convenciam de que ele havia sido uma boa contratação.

A melhor notícia para que a carreira de Gento no Real Madrid desse certo foi a contratação do meia-atacante argentino Héctor Rial, ocorrida em 1954. Com ele ao lado, o espanhol aprimorou o domínio de bola, dosou melhor as arrancadas e passou a se sacrificar mais pela equipe. "Ganhei em perseverança e raça, aprendi com os meus companheiros e fui em frente", recorda. O chute potente de canhota fazia o resto.

Paco Gento em 1960

: Os precisos cruzamentos efetuados do lado esquerdo do campo viraram uma jogada fundamental da histórica equipe do Real Madrid que conquistou seis títulos europeus em um espaço de onze temporadas, entre 1956 e 1966. O nome de Gento fazia parte da magia proporcionada por craques como Raymond Kopa, Hector Rial, Alfredo Di Stefano e Ferenc Puskás.

Com arrancadas que se assemelhavam ao vento súbito e tempestuoso típico do litoral norte da Espanha, Gento ganhou o apelido de "Ventania da Cantábria". Mesmo assim, alguns adversários queixavam-se de outra coisa. "O Paco corre muito, mas o pior não é o quanto ele corre, mas quando ele para", diziam.

"Corro, corro, corro pelo campo e, na hora certa, cruzo para trás", descrevia, com gestos típicos, o ponteiro, que ganhou um lugar eterno na história do futebol por jogadas desse tipo — e também por ser o único jogador do mundo a participar de 15 edições seguidas da antiga Copa dos Campeões da Europa entre 1956 e 1970, disputando oito finais nesse período.

Gento comemorou o título em cinco decisões consecutivas, entre 1956 e 1960. Para ele, no entanto, a sexta conquista foi a mais especial de todas. Em 1966, o Real Madrid havia sofrido uma profunda renovação no elenco. Estrelas míticas tinham deixado o clube, e ele sobrevivera como capitão de uma nova geração de jogadores espanhóis conhecida como "ye-yés" por conta da influência da estética dos anos 60, o auge dos Beatles.

Na decisão, contra o Partizan de Belgrado, disputada no Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas, Gento entrou definitivamente para a história do Real Madrid ao conquistar o sexto título europeu. O time merengue levaria 32 anos até vencer novamente a competição, já então batizada de Liga dos Campeões.

A imprensa, inclusive da Catalunha, se rendeu de vez à categoria do futebol apresentado por Gento. "Paco Gento encarna a velha guarda, os tempos gloriosos, a centelha lançada pelos pés de Rial ou Di Stefano”, publicou o jornal La Vanguardia, de Barcelona, terra do maior rival do Real Madrid. "Jamais se jogou um futebol como o daquele time do Real Madrid (...) Gento foi deixando pelo caminho, com o passar dos anos, algumas das suas notáveis qualidades. O drible é mais lento, e a movimentação ganhou uma cadência mais perceptível. Ele continua sendo um raio, mas explode com menos frequência. Apesar disso, a presença em campo dá ânimo e organiza a equipe psicologicamente."

Recordista com a Fúria
"Só me faltou o título de campeão mundial com a seleção para que eu conseguisse todas as taças possíveis", comenta Gento, que não obteve êxito internacional nas 44 partidas pela Espanha. Ele foi, durante muitos anos, o jogador que mais vezes vestiu a camisa da Fúria, com a qual disputou a Copa do Mundo da FIFA em 1962 e 1966. Mesmo assim, perdeu o lugar para Carlos Lapetra, ponteiro do Zaragoza, na lista de convocados para a Eurocopa 1964, na qual a Espanha conquistaria o seu primeiro título continental.

Em 1971, Gento pendurou as chuteiras, encerrando uma era no Real Madrid. "Uma final sem Paco Gento é, no máximo, é uma final mutilada”, dizia a imprensa da época. Já a carreira como treinador, no comando dos clubes espanhóis Castilla, Castellón, Palencia e Granada, além das categorias de base do Real Madrid, foi discreta.

Mais tarde, Gento assumiu o cargo de embaixador do Real Madrid na Europa. O clube já promoveu três partidas para homenageá-lo. A primeira foi em 1965, quando ele ainda era jogador profissional, contra o River Plate. Em 1972, já após a aposentadoria, ocorreu a segunda, contra o Belenenses. A terceira, em 5 de dezembro de 2007, valeu pelo Troféu Santiago Bernabéu, em partida na qual o Real Madrid enfrentou o Partizan de Belgrado, a última vítima de Gento em uma final europeia.

"Diziam que eu corria tanto que saía do campo, que eu corria mais que a bola e a deixava para trás, mas tudo depende da sua vontade, do seu espírito de sacrifício. É preciso ter muita vontade de jogar futebol e querer ser o melhor." Quem se atreve a discordar do homem que, com seis títulos europeus e 12 espanhóis, foi um dos jogadores mais vitoriosos de todos os tempos?

Carreira como jogador
Nome completo: Francisco Gento Lopez
Data de nascimento: 21 de outubro de 1933
Local: Guarnizo (Cantabria, norte da Espanha)
Posição: Ponta esquerda

Clubes: Racing de Santander (1952/53), Real Madrid (1953/1971)
Seleção: 44 partidas (5 gols)

Principais títulos*:
- Campeonato Espanhol: (12) 1954, 1955, 1957, 1958, 1961, 1962, 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969.
- Copa dos Campeões da UEFA: (6) 1956, 1957, 1958, 1959, 1960, 1966.
- Copa da Espanha: (2) 1962, 1970.
- Copa Intercontinental: (1) 1960
- Copa Latina: (2) 1955, 1957

Curiosidades

Gento estreou na primeira divisão espanhola contra o Barcelona quando defendia o Racing de Santander. Ele não durou muito no clube, pelo qual jogou dez partidas da liga e marcou dois gols.

Gento jogou 761 partidas pelo Real Madrid e marcou 263 gols, entre eles o número 2.000 da história do clube no Campeonato Espanhol, anotado em 9 de novembro de 1963 no Santiago Bernabéu contra o Pontevedra.

Gento disputou a última partida pela seleção espanhola no dia 15 de outubro de 1969, em confronto válido pelas eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA 1970. Aquele foi justamente o primeiro jogo de Ladislao Kubala como técnico da Fúria.

Gento fez parte da seleção mundial que enfrentou a Inglaterra em 1963 no centenário da Federação Inglesa. Jogaram também Yashin (URSS), Djalma Santos, Pelé (Brasil), Puskás (Hungria), Kopa (França), Di Stefano (Argentina), Eusébio (Portugal) entre outros.

Gento marcou contra o Peñarol um gol na final que deu ao Real Madrid o primeiro título da Copa Intercontinental. Depois do 0 a 0 na ida, no Estádio Centenário de Montevidéu, o Real conquistou o troféu de 1960 ao vencer por 5 a 1 no Santiago Bernabéu.


Pesquisas realizadas por Sidney Barbosa da Silva.
Fontes: Futebol Clássico da FIFA (2012); e Arquivo www.campeoesdofutebol.com.br
Página adicionada em 05/Abril/2020.