O Início

O Sr. José Ferreira, tesoureiro do British Bank, tinha um filho, o Zuza, como era conhecido na família. O endiabrado garoto deixava seus pais em constante preocupação, pois raro era o dia em que não recebiam uma queixa do menino. Decidiram então mandá-lo para a Europa onde receberia uma educação melhor. Só assim, na Inglaterra, o garoto tomaria juízo - pensavam os pais. Passaram-se quatro ou cinco anos, quando, saudoso, o velho Ferreira resolveu ir buscar seu filho. No dia 25 de outubro de 1901, singrava vagaroso as águas da Baía de Todos os Santos, o Clyde da Mala Real e nele, na amurada do convés, lá estavam de regresso o velho Ferreira e o Zuza, já crescido, com ares de homem e com um sotaque estrangeirado. Nas suas malas trazia o Zuza, caladinho, uma bola de couro.

Já em terra, logo no primeiro domingo, pela manhã, lá se ia o Zuza, contente, rumo ao Campo da Pólvora com a sua bola na mão. Na Lapa, encontra os velhos amigos, irmãos Tapioca, Petersen e Drumond e convida-os para o campo da Pólvora. A mulecada, vendo aquele homem com uma bola daquele tamanho na mão, resolve segui-lo.

No Campo da Pólvora, Zuza formou o grupo no meio do campo. Deu algumas instruções, apanhou duas pedras colocando-as a uma distância uma da outra, 10 metros, pouco mais ou menos. Estava feito o gol. Em seguida volta ao meio de campo. Divide a rapaziada. Um goleiro, dois zagueiros e cinco atacantes. Isso feito, dá um lindo chute, verdadeira bomba. Estava introduzido o futebol na Bahia – 28 de outubro de 1901.

Em pouco tempo cresceu enormemente o número de adeptos e jogadores do esporte bretão. Quase todo Domingo ou feriado havia um baba na Quinta da Barra, na Fonte do Boi, no Papagaio, no Campo da Pólvora ou no Barbalho. Nas ruas, a garotada improvisando as célebres bolas de meia, organizava partidas que terminavam sempre em discussões, tapas e rara a vez em que as vidraças das casas vizinhas não eram vítimas, gerando muita confusão. Quantos castigos e surras não foram aplicados aos jovens craques? E quanta gente a lançar maldição à tal invenção do seu Zuza Ferreira.

Da Inglaterra e Suíça chegam vários rapazes da nossa elite, que ali se achavam estudando línguas. Todos porém são mestres no futebol. A torcida quer conhecer os novos craques e os treinos são assistidos por grande número de curiosos. Os mais concorridos são os treinos entre os times Azul e Vermelho e Barra e Graça. O número de jogadores já é bem animador e todos já dominam a bola regularmente e com maestria. Começam a aparecer os estrangeiros no gramado (na verdade os campos daquela época não tinham grama). Só se fala em jogo da bola como era conhecido o futebol naquele tempo.

Primeiro jogo internacional

Achando-se atracado no Porto um navio americano, chega ao conhecimento dos esportistas da época que nele estava um time de futebol, formado por oficiais americanos. O convite foi feito, imediatamente aceito, e a 30 de agosto de 1903, no Campo da Pólvora, é jogada a primeira partida internacional de futebol, disputada por Americanos e um Combinado Alglo-Brasileiro. A presença de público é colossal. Os times entram em campo com as seguintes formações:

Americanos - Ropper, Rebec e Bilan; Stack, Chary e Friederich; Yzard, Mered, Samport, Ciekand e Serdebetter.

Combinado – Orr, Artur Morais e F. Morell; Alberto Catarino, D. Mc Nair e Rob Mc Nair; Euclides Almeida, Juvenal Tarquínio, Tourlison, Álvaro Tarquínio e Arnaldo Moreira.

Venceu merecidamente o Combinado por 2 a 0, gols de Arthur Morais e Álvaro Tarquínio. O Combinado jogou com calções pretos e camisas brancas e os Americanos com calças brancas e camisas brancas.

O primeiro clube de futebol

Depois do jogo internacional o futebol tomou novo impulso. Rapazes do Comércio, animados, fundam o primeiro clube de futebol da Bahia. Foi ele o Sport Club Bahiano, fundado em 7 de setembro de 1903 e a quem a Bahia esportiva ficou a dever reais serviços.

Os seus sócios realizavam todos os domingos partidas de futebol entre os times Branco e Verde e uma banda de música alegrava o público. No dia 15 de novembro um grande jogo foi realizado entre os já afamados times Verde e Branco. Nesse encontro tomaram parte:

Time Branco – Costa Santos, A. Martins e Monteiro; J. Monteiro, A. Urpia e A. Carvalho; A. Sampaio, Oscar Luz, Arnaldo Moreira, Artur Morais e A. Almeida.

Time Verde – A. Petersen, W. Shindler e R. Mc Nair; F. Petersen, M. Vasconcelos e D. Mc Nair; G. Viana, A. E. Gleig, Pedro Barbosa, D. Bompet e Edgar Tapioca.

Serviu de árbitro o Zuza Ferreira e o jogo terminou empatado em 0 a 0. Logo após, outros clubes surgiram, dentre os quais o Sport Club Itapagipe.

Divulgada as regras de futebol

O Diário de Notícias, dada a animação pelo novo jogo, começa em 31 de outubro de 1903, na sua primeira página, a publicar as regras do futebol. Esgotaram-se as edições.

A 23 de dezembro de 1903, a Loja Pinto Moreira anuncia pelos jornais que recebeu da Europa meias para o jogo de futebol. Todas foram vendidas imediatamente, não chegando para quem as quis. Antes, as meias para moças substituíam as meias próprias para o futebol.

Rio Vermelho

Também no Rio Vermelho a animação pelo novo esporte foi um fato. Vários times são criados, destacando-se os Azuis e Vermelho, fundados por G. Viana e A. Carvalho, respectivamente.

No dia 27 de dezembro de 1903 há um jogo desafio entre os dois times, o qual terminou empatado em 0 a 0. A presença do público foi enorme, verificando-se pequenas brigas entre os assistentes, sendo o primeiro de uma série interminável destes fatos lamentáveis.

Primeiro jogo interclubes na Bahia

Com a fundação dos clubes Bahiano e Itapagipe, trataram logo os seus dirigentes de preparar seus times. Os treinos se faziam com método e os treinadores eram respeitados nas suas decisões e escolhas. Terminado o apronto dos dois times, a 17 de janeiro de 1904 era disputada pela primeira vez na Bahia uma partida de futebol entre clubes.

O memorável encontro teve lugar no Campo do Papagaio sob a arbitragem de Pedro Barbosa que atuou a contento, sendo cumprimentado após o jogo pelos dirigentes dos dois clubes. O Bahiano entrou em campo com camisas vermelhas e brancas e o Itapagipe com camisas pretas e brancas.

O jogo começou às 16h30 com uma assistência formidável. Foram dois tempos de 30 minutos. Aos dois minutos de jogo, numa cobrança de escanteio, o Bahiano, por intermédio de A. Polzin, abre o placar. Logo em seguida J. Gramer faz o segundo para os alvi-rubros. O jogo continua animado, mas no dado momento ouve-se um estouro e o jogo é paralisado. Deu-se o rompimento do pneumático da bola. Vinte minutos depois recomeça a luta sem alteração do placar até o final do primeiro tempo. Após o descanso de 15 minutos voltam os jogadores ao campo. No segundo tempo o Bahiano, aproveitando o cansaço do adversário, amplia a contagem para 7 a 0, com gols, pela ordem, de Edgard Tapioca, A. Albano, Arnaldo Moreira, A. Petersen e Fernando Petersen, escore com que terminou o jogo.

Além desses jogadores, destacaram-se: A. Barbosa, G. Vasco, do vencedor e C. Veloso, J. Guimarães, D. Messeder, AA. Pereira, do Itapagipe. Daí por diante os desafios de sucedem entre os clubes e times, e o entusiasmo pelo futebol cresce dia a dia, sendo enorme o número de clubes fundados.

Brasileiros x Ingleses

Com o advento do futebol, o cricket, que era o esporte da moda, foi desaparecendo. A colônia inglesa aderiu ao esporte da sua pátria e organizou o seu quadro, respeitadíssimo naquela época.

Os brasileiros já possuem jogadores excelentes, iniciando-se então a série de jogos entre ingleses e brasileiros e que tanto entusiasmo despertaram. Em 24 de abril de 1904 tem início a série interminável desses jogos. O local escolhido foi o Campo da Pólvora. Quando às 16 horas teve início o jogo, todas as cadeiras já estavam ocupadas por Exmas. Senhoras e fechado o retângulo pelo povo.

O jogo foi muito bem disputado e terminou sem ser aberto o escore. Dos jogadores ingleses distinguiram-se: A. E. Gleig, R. Mc Nair, D. W. Glossop e F. Stewart. Dos brasileiros: Artur Morais, Waldemar Campos, Arnaldo Moreira, Alberto Catarino e Oscar Luz.

Aparece o Vitória

O Clube de Criket Vitória que desde 13 de maio de 1899 vinha à frente dos destinos do criket, disputando jogos com o Clube Internacional de Criket e outros, dado o entusiasmo pelo novo jogo, resolve criar também a sua seção de futebol sendo seguido pelo Internacional. Começam então as cavações: O Bahiano e o Itapagipe são as vítimas. Os seus jogadores são "cantados" e assim começam os treinos na Quinta da Barra, os quais são assistidos por grande números de torcedores. Nas rodas esportivas é só o que se comenta: a próxima estréia no futebol dos clubes de criket Vitória e Internacional. Em 1º de julho de 1904, no Campo da Pólvora tem lugar o memorável jogo, vencendo o Internacional pelo escore de 2 a 1. Os times foram os seguintes:

Internacional – May, Cowil e Brown; R. Mc Nair, D. Mc Nair e J. Mc Nair; V. Vero, J. Carvalho, A. E. Gleig, Frail e F. Stewart.

Vitória – A. Santos, Artur Morais e W. Campos; Ed. Almeida, Oscar Luz e J. N. Monteiro; P. Ferreira, Artemio Valente, Z. N. Monteiro, Pedro Barbosa e Arnaldo Moreira.

Depois desse encontro, vários clubes foram fundados, destacando-se o Sul América, o São Paulo Club, o Brasil, o Aquidaban, o Riachuelo, o 7 de Setembro (que em 1914 é reorganizado com o nome de Ypiranga) e outros.

Outros Jogos

A presença feminina torna-se figura obrigatória nos jogos, bem como uma banda de música. Continuando a série de jogos amistosos temos ainda o encontro entre o Bahiano e o São Paulo, que fez sua estréia, empatando em 0 a 0 tendo se destacado os seus jogadores: Fernando Alves, Oscar Alves, A. Petersen e Jonas; e o jogo Vitória 3 x 0 São Paulo, em 4 de setembro de 1904, levando ao Campo da Pólvora um grande público, num jogo arbitrado por A. E. Gleig. Destacaram-se pelo alvi-preto (Vitória), Pedro Barbosa, Oscar Luz, Alberto Catarino, W. Campos, E. Schlapfer e Artur Morais, autor do terceiro gol, e pelo São Paulo, Clodomiro Bastos, Bento e Astolfo.

Medidas da Intendência

O futebol agora é jogado em toda a parte. A garotada noite e dia improvisa verdadeiros babas, com prejuízo dos transeuntes e dos proprietários que têm constantemente as vidraças das suas casas espatifadas. As reclamações sucedem-se e a Intendência Municipal é então obrigada a localizar os encontros de futebol publicando a 1º de agosto de 1904 a seguinte nota:

O FUTEBOL – Resolvendo o pedido feito pela Secretaria da Polícia sobre Pontos onde possa ser efetuado jogo de futebol sem prejuízo da propriedade particular, conforme reclamações levantadas, a Intendência Municipal designou-se os seguintes pontos para realizar-se aquela diversão: Campo dos Mártires, no distrito de Nazaré; Quinta da Barra, no distrito da Vitória; Fonte do Boi, no distrito de Brotas; Largo do Barbalho, no distrito de Santo Antônio; e Largo do Papagaio, no distrito da Penha.

Fundada a primeira Liga de Futebol

Dado o entusiasmo pelo futebol, os paulistas pertencentes ao São Paulo Clube, têm a idéia maravilhosa de fundarem uma Liga para a prática desse esporte. De parceria com o Bahiano, convidam o Vitória e o Internacional e no dia 15 de novembro de 1904, na República Paulista, na Palma, fundam a primeira liga de futebol na Bahia.

O Jornal de Notícias assim registrou o fato: "Anteontem, dia 15 às 11 horas do dia, reunidos alguns sócios dos Clubes Vitória, Internacional, Bahiano e São Paulo, na sede deste, instalaram a Liga Bahiana de Sports Terrestres que tem por fim dar maior desenvolvimento aos esportes terrestres da Bahia".

Procedida a eleição a diretoria ficou assim composta: Presidente – F. G. May; Vice – Artemio Valente; Secretário – Astolfo Margarido; e Tesoureiro: Aníbal Petersen.

Preparativos para o campeonato

A Liga Bahiana abre inscrição para o seu 1º Campeonato e uma comissão tendo a frente Álvaro Tarquínio está tratando do nivelamento e cercado do Campo da Pólvora. Eis porém que surge um impasse. Quando a Comissão chega ao campo encontra quase armado o Circo Lusitano. Vai então a Liga por meios legais impedir que o Circo continue instalado no local, desde quando a Intendência tem com ela contrato concedendo-lhe o campo para o Campeonato de Futebol. Felizmente o proprietário do Circo entrou em combinação com a Liga e transferiu o seu Circo para uma das cabeceiras do Largo não empatando assim o campo propriamente dito. Conseguiu ainda a Liga, por empréstimo, do proprietário do Circo que se tornou um grande amigo dos esportes, cem cadeiras que eram colocadas nos dias dos jogos em volta do campo para assento das senhoras e autoridades.

Aprovada a tabela dos jogos

Tendo alguns jogadores do São Paulo se filiado a outros Clubes, resolveu a equipe da Colônia Paulista desistir da disputa uma vez que seu time ficaria fraquíssimo. A Liga tomou conhecimento da resolução do seu fundador, mas, como a tabela já se achava aprovada resolveu deixá-la como estava, ficando vagos os domingos em que aquele Clube deveria jogar.

Começa o campeonato

Em 9 de abril de 1905, no Campo da Pólvora, teve início o 1º Campeonato Baiano de Futebol com o jogo entre o Vitória e Internacional. Um grande público se fez presente, animado por uma banda de música. O jogo começou às 16h30 e terminou com a vitória do Internacional por 3 a 1, com dois gols de Stewart e um de Hayne, descontando para o Vitória, Juvenal Tarquínio, em partida arbitrada pelo Sr. Aníbal Petersen.

O Vitória atuou com Luiz Tarquínio, Pedro Ferreira e Rodrigo Sampaio; Oscar Luz, Alberto Catarino e Arnaldo Moreira; Oscar Alves, Juvenal Tarquínio, Álvaro Tarquínio, Pedro Barbosa e W. Chest.

O Internacional jogou com G. Orr, C. C. Scharp e C. North; D. Mc Nair, A. E. Gleig e R. Mc Nair; V. Vero, J. C. Covey, A. Hayne, F. Stewart e J. Mc Nair.

Obs.: Texto publicado no Jornal A Tarde em 27/02/2006, na seção MegaFone do suplemento A Tarde Esporte Clube.

Desta forma, dava início o campeonato bahiano de futebol, um dos mais antigos do Brasil.


Fonte: Texto introdutório do Almanaque Esportivo da Bahia – Helenicus – 1944, de autor desconhecido
Arquivo das pesquisas de Luiz Botelho, no blog História do Futebol Bahiano.
Página adicionada em 09 de maio de 2010 - revisada em 01/Janeiro/2021.